Houve um tempo em que os preços mudavam de manhã para a tarde. Em 1994, o Plano Real domou a hiperinflação. Hoje, os juros são decididos por um Banco Central autónomo, o Pix mudou a forma de pagar e o Estado tem regras para gastar. Eis o mapa do dinheiro no Brasil.
Para quem viveu os anos 80 no Brasil, a imagem é inesquecível: funcionários de supermercado a percorrer os corredores com uma maquineta de etiquetas, a remarcar os preços várias vezes por semana. Quem recebia o salário corria a gastá-lo antes que perdesse valor. A inflação chegou a passar dos 80% num só mês.
Seguiram-se planos atrás de planos — congelamentos de preços, cortes de zeros, até o bloqueio das poupanças. Nenhum resultou, até que, em 1994, o Plano Real encontrou uma saída engenhosa.
Seis moedas em 14 anos.Entre 1980 e 1994, os brasileiros usaram o cruzeiro, o cruzado, o cruzado novo, de novo o cruzeiro, o cruzeiro real e, finalmente, o real.
Ao contrário de Portugal, o Brasil tem moeda própria — e por isso todas as decisões monetárias se tomam em Brasília. São três as peças centrais: um conselho que fixa as regras e a meta, um banco central que decide os juros para a cumprir e um Ministério da Fazenda que gere as contas do Estado.
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Uma diferença marcante em relação a Portugal: o Estado brasileiro é dono de alguns dos maiores bancos do país, que usa para executar políticas públicas.
No Brasil, como em todo o lado, os bancos não se limitam a guardar dinheiro: quando concedem um empréstimo, criam um depósito novo na conta do cliente. É assim que nasce a maior parte do dinheiro. Para travar excessos, o Banco Central exige capital mínimo e uma parte dos depósitos fica «presa» no próprio Banco Central — o depósito compulsório, tradicionalmente mais alto no Brasil do que na Europa.
À esquerda, o que o banco tem (ativo). À direita, o que deve aos depositantes e o que pertence aos acionistas (património). Os dois lados são sempre iguais.
Lançado em novembro de 2020, o Pix permite transferir dinheiro em segundos, 24 horas por dia, sete dias por semana, usando apenas uma «chave» — o CPF, o telemóvel, o email ou um código QR. Para as pessoas, é gratuito.
Em poucos anos tornou-se o meio de pagamento mais usado do país, à frente do cartão e do dinheiro vivo, e chegou a quem nunca tinha tido conta bancária. Foi desenhado e é gerido pelo próprio Banco Central — que assim forçou os bancos a competir e a baixar as tarifas das transferências.
O Conselho Monetário Nacional fixa a meta; o Banco Central persegue-a. A ferramenta é a taxa Selic, a taxa básica de juros da economia, decidida pelo Copom (Comité de Política Monetária) em oito reuniões por ano. O Brasil tem tradicionalmente dos juros reais mais altos do mundo: nos últimos anos, a Selic variou entre 2% (2020, mínimo histórico) e 15% (2025).
Desde 2025, a meta é de 3%, com uma margem de tolerância de 1,5 pontos para cima ou para baixo. A diferença face ao passado é que já não se avalia só em dezembro: se a inflação acumulada em 12 meses ficar fora do intervalo durante seis meses seguidos, o presidente do Banco Central tem de escrever uma carta aberta ao ministro da Fazenda a explicar porquê e o que vai fazer. Arraste:
No Brasil, o mesmo banco pode cobrar juros muito diferentes consoante o tipo de crédito. Uma parte importante do crédito é direcionado: rural, habitação (com recursos da poupança e do FGTS) e BNDES, com juros mais baixos definidos por regras. O resto é crédito livre, a preço de mercado.
Se o Banco Central cuida da moeda, a política fiscal — impostos e despesas — é do Governo e do Congresso. Depois de décadas de descontrolo, que alimentaram a inflação, o Brasil foi criando regras para disciplinar as contas públicas.
Cinco perguntas. Sem pesquisar no Google.