Explicador · Economia

Quem manda no dinheiro? Do escudo ao euro, como funciona a moeda em Portugal.

As taxas de juro que pesam na prestação da casa são decididas em Frankfurt. Os bancos que as cobram são vigiados a partir de Lisboa. E o Estado tem as suas próprias regras para gastar. Eis o mapa do dinheiro em Portugal.

Parte 1

Do escudo ao euro

Durante quase todo o século XX, os portugueses pagaram em escudos. O Banco de Portugal imprimia a moeda e o Governo decidia, na prática, quanto valia. Quando a economia apertava, o escudo era desvalorizado — as exportações ficavam mais baratas, mas as importações, e a vida, mais caras.

Depois do 25 de Abril, essa liberdade teve um preço: crises, dois pedidos de ajuda ao FMI e inflação que, no início dos anos 80, passou dos 25% ao ano. A entrada na Europa e, depois, no euro, foi também uma forma de importar estabilidade — trocando o controlo da moeda por regras comuns.

19 de novembro de 1846
Nasce o Banco de Portugal
Resulta da fusão do Banco de Lisboa com a Companhia Confiança Nacional. Só mais tarde ganha o exclusivo da emissão de notas.
1911
O escudo substitui o real
A recém-criada República troca de moeda: 1 escudo vale 1000 réis — daí os «mil-réis» e o cifrão a separar escudos de centavos (1$50).
1975 · 1977 · 1983
Nacionalizações e o FMI à porta
Os bancos são nacionalizados em março de 1975. Com o país sem divisas, Portugal pede ajuda ao FMI em 1977 e outra vez em 1983. A inflação dispara.
1986 · 1992
Europa e câmbios disciplinados
Portugal adere à CEE em 1986; os bancos voltam a ser privatizados a partir de 1989. Em 1992, o escudo entra no mecanismo europeu de taxas de câmbio, primeiro passo para a moeda única.
1 de janeiro de 1999
Portugal entra no euro
Portugal é um dos 11 países fundadores. A taxa de conversão fica fixada para sempre: 1 euro = 200,482 escudos. A política monetária passa para o Banco Central Europeu, em Frankfurt.
1 de janeiro de 2002
Notas e moedas na carteira
Os euros chegam às mãos dos portugueses. O escudo deixa de circular no final de fevereiro.
2011 – 2014
O resgate da troika
Sem conseguir financiar-se nos mercados, Portugal recebe um empréstimo de 78 mil milhões de euros da Comissão Europeia, do BCE e do FMI, em troca de um programa de austeridade e reformas.
Agosto de 2014
A queda do BES
O Banco Espírito Santo é alvo de uma medida de resolução: a parte «boa» passa para o Novo Banco. No mesmo ano, o BCE passa a supervisionar diretamente os maiores bancos da zona euro — nasce a União Bancária.
«Dentro do nosso mandato, o BCE está pronto a fazer o que for preciso para preservar o euro. E acreditem: será suficiente.»— Mario Draghi, presidente do BCE, Londres, 26 de julho de 2012. A frase acalmou os mercados no pico da crise das dívidas soberanas.
O que Portugal deu e recebeu Ao adotar o euro, Portugal deixou de poder desvalorizar a moeda ou fixar as próprias taxas de juro. Em troca, ganhou juros mais baixos, estabilidade de preços e uma moeda partilhada por mais de 350 milhões de europeus.
Parte 2

Três moradas do dinheiro

Para perceber quem decide o quê, basta lembrar três moradas. Em Frankfurt, o Banco Central Europeu decide o preço do dinheiro para toda a zona euro. Na Baixa de Lisboa, o Banco de Portugal aplica essas decisões e vigia os bancos. No Terreiro do Paço, o Ministério das Finanças trata do orçamento e dos impostos.

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E há mais vigilantes

O sistema financeiro não são só bancos. Cada setor tem o seu supervisor — e há quem fiscalize o próprio Estado.

CMVMComissão do Mercado de Valores Mobiliários: bolsa, ações, obrigações e fundos de investimento.
ASFAutoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões.
Conselho das Finanças PúblicasEntidade independente, criada em 2011, que avalia as contas e as previsões do Governo.
INEO Instituto Nacional de Estatística mede a inflação, o PIB e o desemprego.
Valora e INCMA Valora, do Banco de Portugal, imprime notas de euro no Carregado; a Imprensa Nacional-Casa da Moeda cunha as moedas.
IGCPA agência que gere a dívida pública: emite obrigações do Tesouro e os certificados de aforro.
Parte 3

Como funcionam os bancos

A ideia mais comum — o banco guarda o dinheiro de uns para o emprestar a outros — está incompleta. Quando um banco concede um empréstimo, não vai buscar notas a um cofre: cria um depósito novo na conta do cliente. É assim que nasce a maior parte do dinheiro que circula na economia.

Prova disso: na zona euro, as notas e moedas são só uma pequena fatia de todo o dinheiro. O resto são números em contas bancárias.

Notas e moedas (≈ 1 em cada 10 euros)Depósitos bancários (≈ 9 em cada 10)

Seja o Banco do Bairro

Valores em milhões de euros · banco fictício

À esquerda, o que o banco tem (ativo). À direita, o que deve aos depositantes e o que pertence aos acionistas (capital). Os dois lados têm de ser sempre iguais.

Rácio de capital
0%8%10,5%20%

As redes de segurança

Como os bancos criam dinheiro e emprestam a longo prazo com depósitos que podem ser levantados a qualquer momento, o sistema precisa de travões:

  1. Capital mínimoAs regras europeias obrigam os bancos a ter capital próprio de pelo menos 8% dos ativos ponderados pelo risco — na prática bem mais, com as almofadas extra exigidas pelos supervisores.
  2. LiquidezTêm de guardar ativos fáceis de vender para aguentar 30 dias de levantamentos em stress. Se faltar dinheiro, o banco central empresta contra garantias.
  3. Garantia de depósitosO Fundo de Garantia de Depósitos assegura até 100 000 euros por depositante e por banco, mesmo que o banco feche.
  4. ResoluçãoSe um banco falir, as autoridades podem separá-lo em «banco bom» e «banco mau», para que as perdas recaiam primeiro sobre acionistas e credores — e não sobre os contribuintes. Foi o que aconteceu com o BES.
Parte 4

Crédito, juros e inflação

O BCE tem um objetivo principal: manter a inflação em 2% a médio prazo. Nem mais (porque os preços a subir corroem salários e poupanças), nem menos (porque a deflação paralisa o investimento). A sua ferramenta principal é a taxa de juro a que empresta e paga aos bancos.

Quando a inflação dispara, o BCE sobe os juros. O efeito propaga-se pela economia como uma cadeia:

Em Portugal, esta cadeia é especialmente rápida. A grande maioria dos créditos à habitação tem taxa variável, indexada à Euribor — por isso, as decisões de Frankfurt chegam à prestação da casa em poucos meses. Entre 2022 e 2023, a Euribor passou de valores negativos para cerca de 4%. Veja o que isso significa:

Simulador de prestação

Taxa variável · Euribor + spread · simplificado
Prestação mensal

Cálculo com prestações constantes, sem seguros nem comissões. Desde 2018, o Banco de Portugal limita o crédito à habitação: em regra, o banco só financia até 90% do valor da casa, a prestação não deve passar de 50% do rendimento e os prazos têm limites.

O que a inflação faz ao seu dinheiro

A inflação é a subida generalizada dos preços. Em Portugal, o INE mede-a todos os meses com o Índice de Preços no Consumidor, a partir de um cabaz de centenas de produtos e serviços. Em 2022, depois da pandemia e da guerra na Ucrânia, chegou perto dos 8% — o valor mais alto em 30 anos. Experimente:

Poder de compra no fim
Parte 5

Como o Estado vigia a economia

Sem moeda própria, o Estado português ficou com uma ferramenta principal: a política orçamental — quanto cobra em impostos e quanto gasta. É a outra metade da economia, e tem as suas próprias regras, nacionais e europeias.

3%
limite europeu do défice, em % do PIB
60%
referência europeia para a dívida pública
10 out
prazo para o Governo entregar o Orçamento
100 mil
euros garantidos por depositante e banco

O ciclo do Orçamento do Estado

  1. Primavera: BruxelasNo «Semestre Europeu», a Comissão Europeia analisa os planos de cada país. Desde 2024, cada Governo compromete-se com uma trajetória de despesa a médio prazo.
  2. Até 10 de outubro: a propostaO Ministério das Finanças prepara o Orçamento: previsões, impostos, despesa de cada ministério. O Governo entrega-o na Assembleia da República.
  3. Outubro: o escrutínioO Conselho das Finanças Públicas e a UTAO, a unidade técnica do Parlamento, avaliam as contas. A Comissão Europeia dá o seu parecer.
  4. Novembro: a votaçãoOs deputados aprovam na generalidade, discutem centenas de propostas de alteração e votam a versão final. Um chumbo pode precipitar eleições: em 2021, a rejeição do Orçamento levou o Presidente a dissolver o Parlamento.
  5. Execução e contasAo longo do ano, a execução é publicada todos os meses. No fim, o Tribunal de Contas dá parecer sobre a Conta Geral do Estado.
A dívida pública Depois da troika e da pandemia, a dívida pública portuguesa passou os 130% do PIB em 2020. Com excedentes orçamentais e crescimento económico, voltou a ficar abaixo dos 100% em 2023. É gerida pelo IGCP, que a financia com obrigações do Tesouro vendidas a investidores — e com os certificados de aforro e do Tesouro comprados pelas famílias.

Quem vigia quem

Assembleia da RepúblicaAprova o Orçamento e os impostos — nenhum imposto existe sem lei do Parlamento.
Tribunal de ContasFiscaliza a legalidade da despesa pública e pode responsabilizar quem gasta mal.
Comissão EuropeiaAvalia o cumprimento das regras orçamentais e pode abrir um procedimento por défice excessivo.
Autoridade TributáriaCobra os impostos: IRS, IRC, IVA. Cruza faturas, salários e contas em tempo quase real.
Autoridade da ConcorrênciaCombate cartéis e abusos de posição dominante, incluindo na banca.
Conselho das Finanças PúblicasO «cão de guarda» independente das contas públicas.
Parte 6

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